Por uma acessibilidade para todos



24 de maio de 2016


Por Juliana Caldeira

Desde janeiro desse ano, lei assegura a pessoas com deficiência direitos básicos, como saúde e educação. Com isso, escolas são proibidas de cobrar ou negar vagas a alunos especiais

2016 começou com boas notícias para as pessoas com deficiência no Brasil, pelo menos no papel. Sancionada em julho do ano passado, a “Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência” (LBI- Lei 13.146/15) entrou em vigor no dia 2 de janeiro, eliminando barreiras de acessibilidade em áreas de saúde, transporte, moradia, serviços, educação, esporte e cidadania por meio do respaldo às pessoas com deficiência para exercerem seus direitos em diversas esferas sociais. O estatuto vem para mudar de vez alguns comportamentos da sociedade, pois com essa aprovação não é mais o deficiente que precisa se adaptar. Tudo deve funcionar de maneira com que esse público possa ser recebido sem nenhuma diferença. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atualmente no Brasil existem 45 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência.

Um dos problemas enfrentados por essa parcela da população é o acesso à educação. Apesar de ser proibido por um decreto legislativo (n° 186) do ano passado, surgiram casos de escolas que cobravam uma taxa extra dos pais para o cuidado dos pequenos ao invés de investirem em profissionais capacitados, colocando a inclusão dos filhos nas mãos dos familiares. A partir de agora, as escolas tanto públicas quanto privadas não podem cobrar a mais do aluno especial e sim devem se adaptar às necessidades desses estudantes. De acordo com o Ministério da Educação (MEC), as unidades de ensino não podem recusar matrículas de alunos com deficiência, pois a partir da nova lei, se isso acontecer deve ser considerado crime, com pena de dois a cinco anos de reclusão e passível de multa. Logo, as instituições não podem adiar ou cancelar a matrícula de algum aluno por ele ser deficiente.
No município do Rio de Janeiro, o trabalho de inclusão de crianças com necessidades especiais nas escolas da rede pública tem avançado a cada ano. Para aperfeiçoar o atendimento aos alunos da Educação Especial, a Secretaria Municipal de Educação, em parceria com o Instituto Municipal Helena Antipoff (IHA), desenvolve atualmente um trabalho pedagógico especializado, além de promover aos profissionais de educação uma formação continuada para que eles atuem diretamente com esses alunos.

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Relegados à Invisibilidade na Cidade Sorriso


15 de novembro de 2015

Por Elisa Calmon e Matheus Plastino

Luís Barbosa nasceu em Curitiba e vive nas ruas de Niterói há 32 anos. Hoje com 66 anos, o paranaense relata: “Estou nessa situação, mas não me sinto falido”. Entretanto, retrata uma realidade de preconceito, opressão e sofrimento ao falar de como a sociedade e os órgãos públicos o encaram. Segundo os dados oficiais da prefeitura, esse senhor, com mais cerca de 120 pessoas, faz parte das estatísticas sobre pessoas em situação de rua no município. Contudo, para quem circula pela cidade com um pouco mais de atenção, é fácil estipular que esses números sejam, na verdade, consideravelmente maiores.

Inaugurado em 2012, o CREPOP (Centro de Referência Especializado em Situação de Rua) é a principal proposta da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos (SEASDH) para contornar esse quadro. O centro tem, teoricamente, como função abrigar e apoiar essas pessoas em situação de vulnerabilidade social. O pequeno imóvel que funciona como sede da instituição está localizado na Rua Coronel Gomes Machado, no centro de Niterói. Com condições precárias e quase nenhuma limpeza, abriga os moradores de rua sem perspectiva em algumas desconfortáveis cadeiras na entrada ou até mesmo na calçada em frente ao local.

Os que mais deveriam ter voz sobre a eficácia desse projeto dificilmente são ouvidos. Porém, suas opiniões sobre o tema são homogêneas. Luís Barbosa é incisivo e apenas descreve a instituição como um “ladrão de documentos”. Já um outro morador da mesma área estende a crítica: “O CREPOP é o braço de opressão da prefeitura aos moradores de rua, eles vêm aqui, pegam nossos documentos e nossos carrinhos, que é de onde conseguimos algum dinheiro, e tentam nos levar para abrigos que não têm estrutura nenhuma.”

CREPOP, guardas municipais e prefeitura são criticados pelos moradores de rua por atuação repressiva (Foto de Matheus Plastino)
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A música como um instrumento de luta feminista


10 de novembro de 2015

Por Leon Lucius de Holanda

Recentemente, a palavra “feminismo” e o próprio movimento “bombaram”. Durante o último ano, por exemplo, o site do jornal Folha de S. Paulo o citou 137 vezes, entre artigos e notícias. Já o G1, um dos maiores portais de notícias do país, noticiou 12 eventos da Marcha das Vadias, que pede o fim de políticas e atos relacionados ao machismo. No Google, o “feminismo” é citado mais de 5 milhões de vezes. A música também não ficou de fora: no Brasil, a funkeira Valesca Popozuda abraçou o movimento e disse “eu sou feminista” e, lá fora, a cantora Beyoncé usou o telão de LED de suaperformance para estampar a palavra “feminista” (em inglês) no palco de uma grande premiação. Só nos Estados Unidos, essa performance foi vista em tempo real por mais de 8 milhões de pessoas.

No entanto, o que significa esse termo? O que significa esse movimento? Segundo Luciana Bittencourt, supervisora do projeto UFF Mulher e mestranda em Serviço Social na mesma instituição, a primeira coisa a se pensar em feminismo é pensá-lo no plural: “feminismos”. Além da questão da temporalidade, há também o fato de haver diferentes revindicações de diferentes grupos dentro do movimento. 

"A cada momento vão surgindo novas correntes e isso também vai reinventando o próprio feminismo" declarou Luciana. 
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Um Vermelho Desbotado


05 de novembro de 2015

Por Felipe Gelani e Matheus Sousa

O ano é 1951. O time do Peñarol, com oito jogadores da seleção uruguaia campeã mundial no ano anterior contra o Brasil, em pleno Maracanã, perde, dentro de casa, no Estádio Centenário, para um tradicional time carioca: o America Football Club. O clube, que vem passando por dificuldades dentro e fora de campo nas últimas décadas, busca se reerguer em sua nova gestão.

Campeão de sete títulos cariocas e vencedor da Copa dos Campeões em 1982 – torneio que contava com a presença dos maiores clubes do Brasil – o America teve sua sede, na Rua Campos Sales, na Tijuca, interditada pelo Corpo de Bombeiros em junho de 2014, após laudos que apontavam problemas estruturais no local.

Recentemente, a administração do clube fechou contrato com uma empresa de construção civil para a reconstrução da sede, que abrigará um shopping. Como afirma o presidente Léo Almada: "Durante o tempo de construção do centro comercial, cujo prazo é de 30 meses, será pago ao America um determinado valor, e, após a inauguração, por um período de cerca de 40 anos, o clube receberá uma porcentagem dos recursos que renderem desse negócio. Foram 57 empresas, mas a escolhida ainda não podemos divulgar porque ainda não está rigorosamente fechado. Esperaremos até o fim desse ano para dar início à derrubada da sede, incluindo o teatro, que será substituído por um novo."

A sede centenária do clube está fechada para os sócios desde o ano passado (foto de Matheus Sousa)
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Frutos que vêm do mar, marejada


30 de junho de 2015

Por André Cavallo, Matheus Plastino e Marcio Castilho

Onde normalmente as pessoas estacionam seus carros para desfrutar da praia, barracas se enfileiravam, mesas e cadeiras estavam espalhadas diante do palco. Debates, música, intervenção teatral, bingo, gastronomia local. Eram os moradores da comunidade de pescadores de Itaipu ocupando o espaço público destinado a quem apenas está ali de passagem. Cultura e formação política deram a tônica da 1ª Marejada Cultural dos Pescadores Tradicionais de Itaipu ocorrida nos dias 27 e 28 de junho.

1ª Marejada Cultural dos Pescadores Tradicionais de Itaipu inclui atividades musicais (Foto: Matheus Plastino)
O evento foi pensado e construído pelos membros da comunidade, com apoio do Museu de Arqueologia de Itaipu, para mostrar que ali é uma zona de produção econômica e cultural de Niterói. “As pessoas estão vendo um pouquinho a maneira como a gente vive, trabalha, cozinha, como a gente interage”, disse Érica, que nasceu e foi criada no modo de vida caiçara. Filha de pescador, ela vendia em uma das barracas pratos que se acostumou a comer no dia a dia. “É apresentar para o público que temos comida boa, que tem peixe fresco, polvo fresco, tem mexilhão, tem lula e isso tem todo dia aqui. São comidas que a gente faz em casa normalmente, como as pessoas fazem bife com batata frita.” Ela orgulha-se em dizer que todo pescado servido saiu do mar de Itaipu.
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A nudez feminina na era digital


06 de maio de 2015

Por Marcella Ramos

X estava terminando o ensino médio e namorava um rapaz por quem nutria uma enorme paixão. Já namoravam há meses e ela tinha certeza de que era para sempre. Com ele, perdeu a virgindade, deu seus primeiros goles em bebidas alcoólicas e viajou pela primeira vez sem seus pais. Sua mãe já havia desistido de tentar impedir que ela dormisse na casa dele nos finais de semana. Ela não era tola de já pensar em casamento, mas se tivesse que se casar com ele, não recusaria. Eles trocavam fotos íntimas como muitos casais acabam fazendo em algum momento. No entanto, quando o namoro chegou ao fim, amigos do ex de X estavam com suas fotos no celular. Não demorou muito e toda escola já tinha acesso a essas fotos. X se encontrou em um pesadelo.

X permaneceu forte, apenas trocou de colégio e seguiu em frente até esquecerem o assunto. No entanto, nem sempre é tão fácil assim. Em novembro de 2013, dois casos bem semelhantes estamparam jornais. Julia Rebeca, 17, teve um vídeo íntimo vazado pelo aplicativo WhatsApp. Ela não aguentou o bullying e se enforcou com um fio elétrico. Quatro dias depois, a jovem gaúcha Giana Laura Fabi, 16, também se matou por motivos parecidos.
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Mulheres como Protagonistas de Suas Famílias


06 de maio de 2015

Por Samil Chalup

Logo no início da ladeira que leva ao Morro do Preventório, em Niterói, Sônia Maria Faria e Maria Hosana Gomes da Silva atendem à população no Banco Comunitário, onde os moradores podem fazer pagamentos, abrir contas pela Caixa Econômica, retirar cheques e até fazer empréstimos. “Todos aqui conhecem e respeitam a gente”, diz Sônia, que trabalha no banco desde 2011. 

Assim como elas, o Censo 2010 revelou que mais de 600 mil mulheres representam 58,8% da mão-de-obra assalariada no Brasil, a maior porcentagem em toda a história do país. Embora elas ainda recebam, em média, 25,8% a menos do que os homens. Iniciativas como o Banco Comunitário, realizado a partir de uma parceria entre a Ampla e a Universidade Federal Fluminense (UFF), têm ajudado milhares de mulheres a conseguirem sua autonomia dentro do lar.
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Empreendedorismo feminino: as donas do negócio


18 de abril de 2015

Por Isabela Zonta e Júlia Ferraro

A última pesquisa Global Entreprernourship Monitor (GEM), divulgada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), em 2013, revelou que o número de mulheres com negócio no Brasil cresceu 18% entre os anos de 2002 e 2012, o que corresponde a 7,2 milhões de pessoas. O estudo mostra também que aproximadamente 39% dessas mulheres, além de gerir o próprio empreendimento, são também “chefes” de seus respectivos domicílios. Os dados mostram um novo retrato social e econômico do empreendedor no Brasil.

O crescimento de mulheres à frente de novos negócios é resultado de vantagens competitivas propiciadas por características comuns ao sexo feminino. Facilidade de organização e planejamento, confiabilidade e resiliência, traços frequentemente usados na descrição de pessoas do gênero feminino, colocam a mulher em posição de vantagem no mercado. Pelo menos é o que afirma a jornalista e escritora Joyce Moysés em seu livro “Mulheres de sucesso querem poder... Amar”.
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Órfã de cinema

21 de maio de 2014

Apesar de Niterói ter 11 salas de cinema, sete delas são do mesmo distribuidor. E não há nenhum cinema de rua

Rafael Trovó

Niterói, a cidade-sorriso, possui 490 mil habitantes e o sétimo melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil. Seu Produto Interno Bruto (PIB) per capita chega a R$ 29.738, acima da média brasileira. Fica a 14 km do Rio de Janeiro, cidade que receberá os principais eventos esportivos da década. Por essas e outras, Niterói é primeiro lugar em qualidade de vida no estado fluminense. 

No entanto, quando o assunto é cinema, a cidade não tem motivos para se orgulhar. Há 11 salas de exibição no município (número considerado razoável). Porém, todas estão concentradas na mão de apenas dois exibidores: Cinemark (no Plaza Shopping, com sete salas) e Severiano Ribeiro (no Shopping Bay Market, com quatro). No total, há na cidade 2.416 poltronas. Cada cadeira corresponde a 201 habitantes. Nenhum cinema de rua. O que aconteceu com Niterói e sua tradicional história cinematográfica?
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Preconceito sem fronteiras

15 de maio de 2014

A homossexualidade, a violência homotransfóbica e a luta por direitos no peculiar contexto interiorano

Natacha Dominicci

Didier Eribon, escritor e filósofo homossexual francês, viveu no interior da França na década de 60. Ele fala sobre um movimento da sua geração de fuga para a cidade grande na busca por pessoas com experiências próximas e para ser valorizado naquilo que o desqualificava na cidade pequena. Meio século depois, esse movimento persiste. A diferença é que não apenas o interior continua sendo local de opressão homossexual, mas os grandes centros vêm perdendo a condição de refúgio devido à violência homotransfóbica.
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Subnotificação de crimes homofóbicos: a face não visível da violência

14 de maio de 2014

Número de homicídios de LGBTs no Brasil é 11 vezes maior do que apontam os registros oficiais da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH), que não incluem outros tipos de crime. Para o psicólogo Marcelo Santana, a subnotificação oculta a gravidade do quadro da violência contra homossexuais.

Fernanda Ramos e Thayane Guimarães


Era sábado à noite, aniversário de uma amiga, quando a garota de 17 anos passava pelo bairro mais boêmio da cidade. Ao sair do ônibus, percebeu não estar sozinha. Um homem havia descido no mesmo ponto que a jovem, e parecia segui-la. No meio do caminho, ela encontrou uma amiga e, abraçadas, apertaram o passo. As frases vieram em gritos: “Vou estuprar vocês! Isso é contra as leis de Deus!”. Pedir ajuda à polícia não resolveu muito. A resposta que recebeu dos homens, às gargalhadas, foi que o agressor “não estava errado em querer consertá-las”. Na delegacia, quando tentavam registrar o ocorrido, mais uma vez os agentes concordaram com o agressor. “Toda essa vontade de liberdade chega a dar nojo”, disse o delegado, após se recusar a dar continuidade ao processo. E nada foi feito. Tudo porque Chloe Soares (nome fictício) resolvera usar uma blusa na qual se lia “Bissexualidade não é só uma fase”. O episódio ocorreu em fevereiro deste ano, na Lapa. O bairro fica na cidade do Rio de Janeiro, capital do sexto estado com maior número de denúncias de agressões a lésbicas, gays, bissexuais e transexuais no Brasil em 2013, de acordo com os dados fornecidos pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH).
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Você não tá me ouvindo?

Uma pesquisa sobre o ensino destinado aos deficientes auditivos
21 de fevereiro de 2014

Foto: inclusaodossurdos.blogspot.com
Juliana Pimenta
Os debates sobre a educação no Rio de Janeiro não se esgotam. Manifestações recentes estouraram nos principais pontos da cidade. No entanto, pouco se fala sobre a educação especial. Só a rede municipal de ensino do Rio de Janeiro abriga 11.840 alunos com deficiência, segundo análise divulgada pela Prefeitura em outubro do ano passado. 

Os surdos/deficientes auditivos estão incluídos nessa parcela. A surdez ou hipoacusia é um termo que serve para definir a perda auditiva. Essa deficiência pode vir desde o nascimento, ou pode ser desenvolvida ao longo dos anos. 
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17 de novembro de 2013


Gustavo Xavier e Rebeca Letieri 

Depois de longa e cansativa caminhada até a Câmara de Vereadores de Niterói, cheguei ao ponto de encontro, combinado no mesmo dia, em uma segunda-feira. O gabinete do vereador do Partido Socialista, Henrique Vieira, era o menor de todos – não por escolha. Havia cinco pessoas presentes em reunião quando bati à porta. O horário combinado para começar, às 17h30, extrapolou uns 20 minutos. Nada fora do comum para a vida de um jornalista. Logo em seguida fui convidada a fazer um tour pelo gabinete, com tom de piada pelos então presentes. A “sala” – se assim pode ser chamada – não devia ter muito mais do que 30 m² e agregava cinco mesas espalhadas entre pequenos corredores de passagem. 

Feitas as devidas apresentações, Paula Máiran, 46 anos, ofereceu-me o tradicional cafezinho “saindo do forno”, preferindo iniciar nosso “bate-papo”, estilo entrevista, na parte externa. A conversa, porém, foi concluída dentro do gabinete, após o término da reunião. Sentada com as pernas emboladas sobre duas velhas cadeiras que estavam no corredor vizinho, Paula aparentava se sentir à vontade e, mesmo ao fim do dia, bem disposta para uma entrevista com duração de duas horas.
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As ruas e a democracia da voz

14 de novembro de 2013


João Pedro Soares e Rebeca Letieri

Durante as recentes manifestações que tomaram as ruas de todo o Brasil no mês de junho/julho, as redes sociais mostraram, pela primeira vez no país, o potencial de mobilização que possuem. Utilizadas para a convocação dos manifestantes, por meio de eventos no Facebook, tornaram-se também espaços de debates e denúncias, principalmente, de abusos policiais muitas vezes omitidos pela grande mídia. 

Nesse contexto, as mídias alternativas ganharam força, pois mostravam à sociedade a ineficiência da cobertura hegemônica. Não tardou para que se espalhasse a ideia de que somente elas seriam capazes de transmitir a verdade, enquanto os jornais hegemônicos apenas transmitiriam o olhar do capital atendendo aos interesses de quem os financiava. No entanto, junto com a maior visibilidade e responsabilidade, evidenciou-se o despreparo de alguns grupos alternativos em diversas ocasiões. Então, surgiu o questionamento: afinal, os grandes veículos de comunicação são ou não são ainda importantes na era digital? Impulsionada por esse debate, a necessidade de regulamentar a comunicação voltou à tona. Em algumas cidades, inclusive, foram realizados protestos em que a democratização da comunicação era a pauta exclusiva.
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A mídia alternativa em tempos digitais

31 de outubro de 2013

Marcio de Souza Castilho*

O modelo tradicional da indústria jornalística enfrenta um duplo desafio diante do novo ambiente comunicacional e das possibilidades abertas pela troca de informações no mundo digital. De um lado, a internet dessacraliza o papel do jornalista como intermediário exclusivo entre os acontecimentos e o público. Indivíduos conectados podem não apenas consumir informação em diferentes plataformas como se expressar livremente na web. Os códigos que asseguravam às empresas de comunicação a manutenção de um lugar de fala autorizado parecem, portanto, menos estáveis no cenário de transformações tecnológicas que permitem aos cidadãos novos modos de interação. O segundo desafio se relaciona com a crise de representatividade do chamado jornalismo hegemônico. A cobertura midiática das manifestações populares de junho e julho e, mais recentemente, da greve de professores da rede pública no Rio de Janeiro, desconstrói a ideia presente no senso comum de que a imprensa atua permanentemente em defesa da coletividade, não se subordinando a nenhum outro interesse que não seja a verdade. A capa condenatória de O Globo “Lei mais dura leva 70 vândalos para presídios” (17/10/2013) é ilustrativa da fragilidade dessas representações que forneceram historicamente as condições de aceitabilidade do discurso jornalístico.
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Somos todos (tão) jovens?

29 de outubro de 2013

Jovens de ontem que participaram da Passeata dos 100 Mil e “Fora Collor” analisam as manifestações de junho deste ano 
Por Luciana Maline e Gabriela Antunes

A sexta-feira de sol a pino era normal no demasiadamente urbano Centro do Rio de Janeiro. O dia da semana costuma reservar o intervalo entre 12h30 e 14h do Buraco do Lume, na praça Mário Lago, para o contato a céu aberto entre o partido político PSOL e os eleitores que passam por ali. Já quase no fim, um jovenzinho morador do Morro do Salgueiro engraxava os sapatos de Chico Alencar. “Tio, tira uma foto?”. Chico, que está em seu terceiro mandato como deputado federal, não hesitou e prontamente atendeu ao pedido, carregando como professor a crença no novo. 

Em sua opinião, dos pequenos aos grandes atos, os jovens são as engrenagens dos movimentos de mudança da história recente do país, como a Passeata dos 100 mil, em 1968, os “caras-pintadas”, em 1992, e as manifestações de junho de 2013. “O que há em comum nos três é a predominância da juventude. A juventude, até por razões físicas, tem mais disposição para marchar, caminhar, se manifestar. Claro que também há o elemento da cabeça mais aberta, não comprometida ainda com os esquemas que o sistema e a sobrevivência impõem. Isso facilita esse elemento mais contestador e rebelde”, observou.
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22 de outubro de 2013

Fotógrafo freelancer, preso durante as manifestações no Rio,
alerta que a violência da polícia sempre existiu nas favelas

Clara dos Santos Barreto e Gabriela Novaes Feitosa
Fotos de Wesley Prado

Preso no momento em que fotografava a ação do Batalhão de Choque, na manifestação do dia 17 de junho, Wesley Prado se revolta com a maneira pela qual a polícia agiu, mas enfatiza o fato de que essa não é a primeira vez. Segundo ele, o excesso de violência usado pela polícia existiu em boa parte da nossa história, principalmente nos subúrbios. “A diferença é que a violência agora foi democratizada: o gás caiu nos olhos da classe média, perturbou o sono e o silêncio dos moradores da Zona Sul, atingindo seus filhos também”, disse ele. 
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18 de outubro de 2013

A pauta da desmilitarização da PM em meio às manifestações populares

Camilla Pacheco e Leonardo Bigio

Acostumada aos “caveirões” e policiais armados na porta de casa, a estudante de Engenharia Civil da UFRJ Amanda Azevedo, moradora da Penha, não acreditou no que viu na noite do último dia 20 de junho. Em frente à Prefeitura do Rio de Janeiro, centenas de agentes de segurança – com seus cachorros e cavalos – protegiam o prédio da multidão de manifestantes que se aproximava com cartazes, gritando palavras de ordem. Ela, que havia saído da concentração que seguiria em passeata do Largo de São Francisco, no Centro, à Cidade Nova, não conseguiu alcançar seu destino. Bombas de gás lacrimogêneo e pessoas correndo por todos os lados tumultuaram a situação, e Amanda seguiu em direção à Lapa. Lá, longe dos mais de 100 mil manifestantes, dos policiais e da confusão, encontrou cenário parecido. De dentro de um bar, a portas trancadas, ouviu gritos, barulho de motores, bombas e tiros. Ao se aventurar para um cigarro do lado de fora, foi surpreendida por um projétil de gás lacrimogêneo batendo em seu pé, lançado por um policial na garupa de uma das três motos que subiram a rua onde ela estava. Segundo Amanda, a ação foi injustificável e descabida. Essas são as principais denúncias contra a Polícia Militar (PM) desde o início das manifestações em junho: truculência e abusos. Outros relatos denunciam a força excessiva da tropa e a infiltração de policiais entre os manifestantes.
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25 de julho de 2013


Sylvia Debossan Moretzsohn
Publicado no Observatório da Imprensa, edição 754, 13/07/2013


As alegações variam, mas os métodos e objetivos são os mesmos: intimidar os militantes da mídia alternativa que vêm documentando os protestos no Rio de Janeiro, cada vez mais concentrados na figura do governador do estado. Em junho, foi a prisão de um estudante de jornalismo que fotografava a primeira grande manifestação no Centro da cidade, sob a acusação de “formação de quadrilha”. Agora, foram dois representantes da Mídia Ninja, que na noite de segunda-feira (22/7) transmitiam os distúrbios em frente ao Palácio Guanabara, minutos após o fim da cerimônia de recepção ao papa Francisco, recém-chegado para a Jornada Mundial da Juventude. A acusação: incitação à violência.
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29 de junho de 2013


Sylvia Debossan Moretzsohn


A truculência na repressão indiscriminada e gratuita a manifestantes que participaram de várias das passeatas nos últimos dias, desde a quinta-feira sangrenta (13/6) na Avenida Paulista, impôs a urgência de uma velha demanda: a desmilitarização das polícias e a discussão sobre o papel dessa instituição num Estado democrático.

A indignação contra a violência policial se espalhou imediatamente nas redes sociais, muitas vezes acompanhada de vídeos incontestáveis: soldados lançando bombas de gás e disparando balas de borracha contra pessoas que esperavam a abertura dos portões do metrô para voltar para casa, ou estavam em bares, ou observavam o movimento e levantavam as mãos, encurraladas pela polícia.
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