Fernanda Queiroz e Maria Clara Pestre
Com 21 anos, sem condição financeira ou um relacionamento estável, E.L., 25, engravidou e decidiu abortar. Em seu país, entretanto, o aborto é considerado crime. Sem alternativas, a estudante buscou uma clínica ilegal. O procedimento aconteceu sem deixar sequelas, e E.L. seguiu para o pós-operatório. Porém, na primeira consulta de acompanhamento ela percebeu um comportamento estranho do seu médico. “Ele ficou passando a mão no meu clitóris de um jeito que não era mais médico, e sim no intuito de me dar prazer. Fez isso também nos seios. Eu percebi, não falei nada, por medo mesmo, afinal, sentia-me uma criminosa, estava confusa”, disse.
Esse caso, embora particular, ilustra a situação de milhares de mulheres que, ao redor do mundo, buscam o aborto ilegal. Marginalizadas pela escolha de não ter um filho, elas são silenciadas e expostas a violências físicas, mentais e muitas vezes sexuais que ficam à sombra da regulamentação. Na maioria dos casos, as grávidas são submetidas a condições insalubres, ferramentas inapropriadas e utilização de força bruta, motivos que podem causar infecções, hemorragias e até a morte. Todo ano morrem, ao redor do mundo, aproximadamente 68 mil mulheres por complicações geradas por abortos ilegais, representando 13% das mortes maternas no mundo. Esse número, na América Latina, é ainda maior, chegando a 17%, de acordo com a World Health Organization (WHO).