Frutos que vêm do mar, marejada


30 de junho de 2015

Por André Cavallo, Matheus Plastino e Marcio Castilho

Onde normalmente as pessoas estacionam seus carros para desfrutar da praia, barracas se enfileiravam, mesas e cadeiras estavam espalhadas diante do palco. Debates, música, intervenção teatral, bingo, gastronomia local. Eram os moradores da comunidade de pescadores de Itaipu ocupando o espaço público destinado a quem apenas está ali de passagem. Cultura e formação política deram a tônica da 1ª Marejada Cultural dos Pescadores Tradicionais de Itaipu ocorrida nos dias 27 e 28 de junho.

1ª Marejada Cultural dos Pescadores Tradicionais de Itaipu inclui atividades musicais (Foto: Matheus Plastino)
O evento foi pensado e construído pelos membros da comunidade, com apoio do Museu de Arqueologia de Itaipu, para mostrar que ali é uma zona de produção econômica e cultural de Niterói. “As pessoas estão vendo um pouquinho a maneira como a gente vive, trabalha, cozinha, como a gente interage”, disse Érica, que nasceu e foi criada no modo de vida caiçara. Filha de pescador, ela vendia em uma das barracas pratos que se acostumou a comer no dia a dia. “É apresentar para o público que temos comida boa, que tem peixe fresco, polvo fresco, tem mexilhão, tem lula e isso tem todo dia aqui. São comidas que a gente faz em casa normalmente, como as pessoas fazem bife com batata frita.” Ela orgulha-se em dizer que todo pescado servido saiu do mar de Itaipu.
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As ruas e a democracia da voz

14 de novembro de 2013


João Pedro Soares e Rebeca Letieri

Durante as recentes manifestações que tomaram as ruas de todo o Brasil no mês de junho/julho, as redes sociais mostraram, pela primeira vez no país, o potencial de mobilização que possuem. Utilizadas para a convocação dos manifestantes, por meio de eventos no Facebook, tornaram-se também espaços de debates e denúncias, principalmente, de abusos policiais muitas vezes omitidos pela grande mídia. 

Nesse contexto, as mídias alternativas ganharam força, pois mostravam à sociedade a ineficiência da cobertura hegemônica. Não tardou para que se espalhasse a ideia de que somente elas seriam capazes de transmitir a verdade, enquanto os jornais hegemônicos apenas transmitiriam o olhar do capital atendendo aos interesses de quem os financiava. No entanto, junto com a maior visibilidade e responsabilidade, evidenciou-se o despreparo de alguns grupos alternativos em diversas ocasiões. Então, surgiu o questionamento: afinal, os grandes veículos de comunicação são ou não são ainda importantes na era digital? Impulsionada por esse debate, a necessidade de regulamentar a comunicação voltou à tona. Em algumas cidades, inclusive, foram realizados protestos em que a democratização da comunicação era a pauta exclusiva.
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22 de outubro de 2013

Fotógrafo freelancer, preso durante as manifestações no Rio,
alerta que a violência da polícia sempre existiu nas favelas

Clara dos Santos Barreto e Gabriela Novaes Feitosa
Fotos de Wesley Prado

Preso no momento em que fotografava a ação do Batalhão de Choque, na manifestação do dia 17 de junho, Wesley Prado se revolta com a maneira pela qual a polícia agiu, mas enfatiza o fato de que essa não é a primeira vez. Segundo ele, o excesso de violência usado pela polícia existiu em boa parte da nossa história, principalmente nos subúrbios. “A diferença é que a violência agora foi democratizada: o gás caiu nos olhos da classe média, perturbou o sono e o silêncio dos moradores da Zona Sul, atingindo seus filhos também”, disse ele. 
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18 de outubro de 2013

A pauta da desmilitarização da PM em meio às manifestações populares

Camilla Pacheco e Leonardo Bigio

Acostumada aos “caveirões” e policiais armados na porta de casa, a estudante de Engenharia Civil da UFRJ Amanda Azevedo, moradora da Penha, não acreditou no que viu na noite do último dia 20 de junho. Em frente à Prefeitura do Rio de Janeiro, centenas de agentes de segurança – com seus cachorros e cavalos – protegiam o prédio da multidão de manifestantes que se aproximava com cartazes, gritando palavras de ordem. Ela, que havia saído da concentração que seguiria em passeata do Largo de São Francisco, no Centro, à Cidade Nova, não conseguiu alcançar seu destino. Bombas de gás lacrimogêneo e pessoas correndo por todos os lados tumultuaram a situação, e Amanda seguiu em direção à Lapa. Lá, longe dos mais de 100 mil manifestantes, dos policiais e da confusão, encontrou cenário parecido. De dentro de um bar, a portas trancadas, ouviu gritos, barulho de motores, bombas e tiros. Ao se aventurar para um cigarro do lado de fora, foi surpreendida por um projétil de gás lacrimogêneo batendo em seu pé, lançado por um policial na garupa de uma das três motos que subiram a rua onde ela estava. Segundo Amanda, a ação foi injustificável e descabida. Essas são as principais denúncias contra a Polícia Militar (PM) desde o início das manifestações em junho: truculência e abusos. Outros relatos denunciam a força excessiva da tropa e a infiltração de policiais entre os manifestantes.
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25 de julho de 2013


Sylvia Debossan Moretzsohn
Publicado no Observatório da Imprensa, edição 754, 13/07/2013


As alegações variam, mas os métodos e objetivos são os mesmos: intimidar os militantes da mídia alternativa que vêm documentando os protestos no Rio de Janeiro, cada vez mais concentrados na figura do governador do estado. Em junho, foi a prisão de um estudante de jornalismo que fotografava a primeira grande manifestação no Centro da cidade, sob a acusação de “formação de quadrilha”. Agora, foram dois representantes da Mídia Ninja, que na noite de segunda-feira (22/7) transmitiam os distúrbios em frente ao Palácio Guanabara, minutos após o fim da cerimônia de recepção ao papa Francisco, recém-chegado para a Jornada Mundial da Juventude. A acusação: incitação à violência.
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28 de junho de 2013

A Revolução será Fotografada*



Wesley Prado 

Este ensaio foi produzido durante cinco atos contra o aumento da passagem no Estado do Rio de Janeiro. As manifestações aconteceram entre os dias 14 e 20 de junho de 2013 nas cidades do Rio de Janeiro, Niterói e São Gonçalo.

Alguns analistas já ousam a chamar de revolução toda essa movimentação nas ruas. Se considerarmos a etimologia da palavra (revolutio) é possível entender que o que se passa é uma grande volta, uma girada social que aponta para mudança.
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20 de junho de 2013
 


Sylvia Debossan Moretzsohn

O comportamento da grande imprensa na cobertura da repressão às manifestações contra o aumento das passagens de ônibus e contra os gastos exorbitantes para a realização da Copa do Mundo no Brasil forneceu mais um estímulo a quem propõe o abandono da “velha mídia” em nome das redes sociais, apresentadas como fonte das informações verdadeiras e veiculadas sem as mediações que as deturpam ou lhes retiram a força.

Infelizmente, as coisas não são simples assim.
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Entre a cadeira e o colo

16 de abril de 2013

O dia em que uma pequena índia encarou a justiça dos homens

Wesley Prado

Presenciei o dia em que um índio sentou na cadeira da Justiça da Federação brasileira. Nesse dia histórico, a desigualdade e o massacre dessa minoria poderiam ter sido amenizados com o proferir de algumas palavras. Palavras geralmente presentes em discursos diretos e assertivos. Não aquelas frases que percorrem caminhos cíclicos que nem o infinito quer. Nesse dia, eu vi olhos em brasa e carnes trêmulas. Eu vi o desabafo de um povo que clama por justiça, palavra tão usada e pouco entendida.

Correndo por todos os cantos, ela deixa sua marca e confere ao espaço denso e frio o calor de seus movimentos. Com olhos brilhantes, a pequena menina fugiu dos braços da mãe a caminho do inalcançável. Muitos dos seus já ficaram para trás, seja num terreno distante e alagado, seja a sete palmos da terra. “Volta aqui, volta pequena”, gritava um dos seus. Ela nada. Cabelos ao vento e pernas inquietas a levavam por todos os cantos, explorando o desconhecido como há tempos os homens brancos fizeram. Olhos nos olhos, ela encara a pessoa mais poderosa da sala. Uma das poucas que o fez de tão perto. 
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As vozes da comunidade

29 de março de 2013

A partir dos anos 2000, a comunicação popular cresceu devido à insatisfação com a mídia tradicional, fortalecendo a discussão sobre a democratização da comunicação

Natália Nunes Andrade

A maioria das matérias que tem a favela como tema destaca os seus aspectos negativos. De modo geral, estes espaços são vistos como territórios da “bandidagem” e, principalmente, do tráfico de drogas. Foi por causa dessa visão distorcida das grandes empresas de mídia sobre as favelas que a comunicação alternativa e parte daquela definida como comunitária surgiu. Ao inserir os moradores como protagonistas, ela se destaca como forma de expressão da visão de mundo popular.

Em 2001, o Observatório de Favelas fez uma pesquisa com 73 veículos de comunicação em favelas e espaços populares. Destes, 46 foram fundados a partir dos anos 2000. A maioria foi fortemente impulsionada pela insatisfação com as representações de seus territórios de origem feitas pela mídia tradicional. “É complicado quando pesquisamos na Internet e temos como resultado apenas crimes e violência. Na Globo.com, por exemplo, 90% do que é divulgado sobre a Rocinha trata de violência. E a nossa comunidade não é só isso. Nós temos cultura, arte, projetos maravilhosos e pessoas muito talentosas” diz Ocimar Santos, do Rocinha.org.
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